Blusinhas, biquínis e cosméticos sul-coreanos. Até agosto do ano passado, esses eram itens comuns no carrinho de compras da estudante Mariana Passos, que fazia pedidos frequentes em lojas como Shein e Shopee. No entanto, com a criação da “taxa das blusinhas” — um imposto de 20% sobre compras internacionais acima de US$ 50 — seu consumo caiu drasticamente. Agora, com o aumento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) na Bahia, que passou de 17% para 20% a partir desta terça-feira (1º), Mariana deve reduzir ainda mais suas compras.
A decisão de elevar o tributo foi tomada pelo Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) em dezembro e afeta também outros nove estados. Na prática, um produto importado que custava R$ 100 agora pode chegar a R$ 150, sem contar o frete e outras taxas. O governo estadual justifica a medida como uma forma de incentivar a indústria nacional e equilibrar a concorrência entre o mercado interno e plataformas estrangeiras.
Impacto direto no consumo
Com o aumento da tributação, muitos consumidores baianos estão reconsiderando suas compras internacionais. Mariana conta que agora só pretende importar produtos em casos de extrema necessidade ou se os valores compensarem. “São R$ 50 a mais que eu poderia gastar em outra coisa. Isso desmotiva bastante”, afirma.
A jornalista Sofia Rodrigues também sentiu os efeitos da mudança. Ela costumava comprar artigos de papelaria na Shopee e, eventualmente, roupas. Porém, desde a entrada em vigor da nova taxa de importação, interrompeu as compras internacionais. “Passei a buscar alternativas nacionais, mas muitas vezes os produtos são mais caros e de qualidade inferior”, lamenta.
Especialistas analisam impactos no mercado local
Para o planejador financeiro Raphael Carneiro, em entrevista ao Correio 24hs, o aumento do ICMS pode afetar não só os consumidores, mas também o comércio local. “Muitos produtos vendidos no Brasil são importados, então há um risco de aumento generalizado dos preços”, explica. No entanto, ele também observa que a tributação pode favorecer o setor produtivo nacional. “Produtos fabricados no Brasil se tornam mais competitivos em relação aos importados”, complementa.
Guilherme Dietze, consultor da Fecom-BA, reforça essa visão e destaca que a medida pode beneficiar pequenos e médios empresários. “Ela equilibra a concorrência com o empresariado estrangeiro, tornando o jogo mais justo para quem produz localmente”, afirma.
Governo defende a medida
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, defendeu a alta do ICMS durante um evento na Associação Comercial da Bahia (ACB), argumentando que a mudança favorece a indústria e o comércio estadual. No entanto, reconheceu o desafio de equilibrar os interesses do setor produtivo com as demandas da população.
O CORREIO entrou em contato com o Governo do Estado para mais esclarecimentos, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.
Menos compras online e mudanças de hábitos
Com os tributos mais altos, os consumidores baianos estão reformulando seus hábitos de consumo. Além de reduzir as compras em sites internacionais, alguns passaram a explorar novas opções, como brechós e marketplaces locais. “As roupas nas grandes lojas nacionais são caras e, muitas vezes, de qualidade questionável”, critica Sofia.
A tendência, segundo especialistas, é que o aumento dos impostos altere significativamente o comportamento do consumidor na Bahia. Para aqueles que dependiam dos produtos importados por conta dos preços acessíveis, o desafio agora é encontrar alternativas viáveis no mercado interno.