Do alto de uma colina, Santo Amaro parece quase poética. Igrejas históricas, casas espalhadas, o verde do Recôncavo Baiano e o céu que cobre uma das terras mais ricas em cultura do Brasil. Não por acaso, o céu de Santo Amaro já inspirou música, eternizado na sensibilidade do compositor e cantor Flávio Venturini.
É a mesma Santo Amaro que, no passado, teve forte presença na economia regional, impulsionada pelas fazendas de cana-de-açúcar, pelo solo fértil do massapê e por ciclos produtivos que ajudaram a construir riqueza e identidade cultural reconhecida mundialmente.
Mas basta descer a colina para que a paisagem mude drasticamente.
Nas ruas, durante uma ação social promovida pelo Portal InstantBA com comerciantes locais, o contato direto com o senhor Gilberto, a dona Sandra, a dona Fátima e tantas outras famílias revelou que a desigualdade deixa de ser estatística para ganhar nome, rosto e sofrimento. Casas quentes, vazias, sem o mínimo necessário para garantir dignidade humana. Uma realidade invisível para quem governa, mas diária para quem vive nela.
O abandono que atravessa gestões
Aqui não se trata de apontar uma gestão específica. Trata-se da falta crônica de olhar para as pessoas que vivem em Santo Amaro. Pessoas que, a cada quatro anos, recebem visitas de diversos grupos políticos, promessas, abraços e discursos. Passadas as eleições, continuam imersas nas mesmas desigualdades, no mesmo abandono e na mesma espera.
Em uma dessas residências, uma família aguarda há oito meses algo básico: a revisão de uma visita social e a atualização do NIS para retomada de um benefício. A justificativa apresentada foi simples e cruel: “não temos carro para ir fazer a visita”. Enquanto isso, a sobrevivência depende exclusivamente de doações.
Dentro da casa vive um adolescente PCD, exposto ao calor intenso do verão no Recôncavo, sem sequer um ventilador. Não se trata de luxo. Trata-se de sobrevivência. Trata-se de dignidade humana mínima.
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Fé, procissões e contradições
É impossível não se emocionar ao ver, em Santo Amaro, um mar de gente nas grandes manifestações de fé.
No segundo domingo de janeiro, a Procissão do Senhor do Bonfim toma as ruas.
No dia 15 de janeiro, a cidade se reúne para a Procissão do Padroeiro Santo Amaro.
No dia 2 de fevereiro, a fé se renova na Procissão de Nossa Senhora da Purificação.
Há ainda a Procissão de Nossa Senhora do Rosário, expressão profunda da religiosidade popular, que aguarda definição de data para sua realização.
A fé também se manifesta nos cultos que lotam as igrejas protestantes e nos shows que enchem a Praça da Purificação no Dia da Bíblia. Santo Amaro ora, canta, caminha, clama. A espiritualidade ocupa ruas, templos e praças.
Mas a pergunta permanece incômoda e necessária: essa fé tem se traduzido em compromisso com o outro?
Pedimos que os Santos intercedam para que os mais necessitados sejam vistos. Porém, o que temos feito, como sociedade, para que essa intercessão encontre braços, políticas públicas e ações concretas?
Fé sem ação vira apenas rito.
E dignidade humana não pode depender apenas de oração.
Cobrança não é ingratidão, é dever
Não somos nós que devemos cobrar dos governantes? Governantes que elegemos, que recebem salários elevados pagos com nossos impostos todos os meses. Governantes que, quando o cidadão atrasa uma obrigação, processam, cobram judicialmente e penalizam.
E depois posam de “santos”.
Não é nossa obrigação cobrar que trabalhem, que façam o básico, que consigam minimizar a dor de um povo que sofre sem assistência social? Ou vamos aceitar ser coniventes?
Porque se aceitamos ver um de nós nessa situação, se convivemos com essa realidade e, ainda assim, seguimos semanalmente lendo nossas Bíblias, indo ao culto ou à missa, sem indignação e sem ação, estamos sendo hipócritas.
A fé que não se transforma em compromisso com o outro vira apenas ritual.
Responsabilidade coletiva e urgência
Santo Amaro não precisa apenas de festas, procissões e discursos. Precisa de presença efetiva do Estado, de políticas públicas que funcionem longe das câmeras e perto das pessoas.
Precisa que se olhe para baixo da colina.
Ainda há esperança. Esperança de que o Estado chegue até essas famílias. Esperança de que a dignidade deixe de ser promessa e vire prática. Mas esperança, sozinha, não substitui ação.
Enquanto isso, a desigualdade segue gritante, em uma terra rica demais para aceitar ser pobre em humanidade.



