O Arquivo Nacional, guardião da memória oficial do Brasil, está em um processo de redefinição de sua missão, buscando preencher lacunas históricas e refletir a verdadeira diversidade do país. A instituição, tradicionalmente associada ao registro das elites, agora volta seu foco para grupos que foram historicamente excluídos e invisibilizados, como populações indígenas, a população negra e as mulheres.
A diretora-geral do órgão enfatiza que o patrimônio documental, por muito tempo, foi tratado como algo restrito aos setores dominantes da sociedade. A atual gestão, iniciada em 2023, tem como prioridade iluminar as histórias desses outros sujeitos, tornando o acervo mais representativo e acessível a todos os brasileiros.
Uma nova visão para a memória nacional
A instituição reconhece que a construção da memória nacional deve ser plural e representativa. Para isso, o Arquivo Nacional tem implementado diversas iniciativas que visam destacar narrativas que antes permaneciam à margem dos registros oficiais. Este esforço não apenas enriquece o acervo, mas também fortalece a identidade cultural do Brasil ao abraçar todas as suas facetas.
Entre as ações concretas, destaca-se a exposição “Senhora Liberdade”, inaugurada em novembro do ano passado, que permanecerá em cartaz até 12 de junho deste ano. A mostra utiliza a documentação do Arquivo Nacional para narrar as histórias de mulheres que desafiaram a escravidão, lutando pelo reconhecimento de sua liberdade e de suas filhas. Outra iniciativa relevante é a organização de um guia de fundos documentais com marcadores de gênero, raça e regionalidade, que ilumina a presença desses grupos em documentos já existentes, ampliando a perspectiva de um Arquivo Nacional verdadeiramente abrangente.
Descentralização estratégica e aproximação regional
Para aproximar o Arquivo Nacional da população e das diversas regiões do país, a instituição inaugurou escritórios regionais em Salvador (Nordeste), Manaus (Norte) e Porto Alegre (Sul). Essas novas unidades se somam à sede no Rio de Janeiro e à superintendência regional de Brasília, visando descentralizar o acesso e a gestão do patrimônio documental.
A regionalização, iniciada em outubro do ano passado, tem como objetivo principal levar o Arquivo Nacional para mais perto das pessoas, oferecendo cursos e eventos locais. A médio prazo, busca-se ampliar a capacidade de recolhimento de documentos, garantindo que acervos importantes de órgãos públicos federais possam ser conservados e tratados localmente, sem a necessidade de serem transferidos para as sedes principais. As unidades regionais também se articulam com arquivos estaduais e municipais, promovendo um diálogo que respeita as características e interesses locais.
Desafios tecnológicos e a soberania documental
A era digital impõe grandes desafios ao Arquivo Nacional, que busca se apropriar das possibilidades da tecnologia sem comprometer a soberania sobre seu patrimônio documental. A inteligência artificial, por exemplo, é uma ferramenta promissora para auxiliar no manejo de arquivos e na leitura de documentos antigos, especialmente aqueles que exigem estudos de paleografia.
Essa tecnologia é crucial para transcrever documentos que podem servir como provas em lutas por direitos, como as reivindicações de terras por comunidades indígenas e quilombolas. Contudo, a instituição trabalha para garantir que o uso de plataformas de inteligência artificial não signifique a perda da posse e do controle sobre a documentação. Além disso, o Arquivo Nacional está preparando o lançamento do novo Sistema de Atendimento aos Usuários (Siam), com o primeiro módulo previsto para o primeiro semestre de 2026, visando tornar a pesquisa de documentos mais acessível e amigável aos cidadãos.
Resgate da memória da ditadura e o futuro da política arquivística
O Centro de Referência Memórias Reveladas, dedicado a ampliar o acesso a documentos da ditadura militar, teve sua atuação fortalecida e valorizada pela atual gestão. O centro foi realocado para o gabinete da direção-geral e teve o número de servidores ampliado, reconhecendo sua centralidade para a instituição.
Entre 31 de março e 1º de abril de 2026, foi realizada a “Semana Ditadura, Arquivos e Memórias”, evento que marcou a entrega do livro do Prêmio Memórias Reveladas, com artigos acadêmicos, materiais de comunicação e projetos pedagógicos baseados nos arquivos da ditadura. O processo para o Prêmio Memórias Reveladas 2026 já está em andamento, buscando premiar não apenas textos escritos, mas também produções de comunicação e projetos pedagógicos que ensinem sobre a violência e os efeitos negativos desse período, sempre com base em provas documentais.
Olhando para o futuro, a Segunda Conferência Nacional de Arquivos, marcada para maio, representa um momento crucial para o fortalecimento da política arquivística brasileira. Com um intervalo de 15 anos desde a primeira edição, o encontro visa promover uma escuta qualificada da sociedade civil, coletando sugestões e ideias para a Política Nacional de Arquivos. As etapas preparatórias da conferência já contaram com uma participação inédita, com 24 etapas estaduais e 10 conferências livres, demonstrando o engajamento da sociedade civil no diálogo direto com o governo sobre a gestão do patrimônio documental do país. Saiba mais sobre o Arquivo Nacional.





