O Tribunal do Júri de Cachoeira condenou George Anderson Santos, o ex-companheiro de Tainara Santos a 59 anos, 11 meses e 24 dias de prisão. A jovem quilombola, de 27 anos, desapareceu no dia 9 de outubro de 2024 após ter se encontrado com George na cidade de Cachoeira, em meio a circunstâncias questionadas pela defesa.
O julgamento começou na manhã de quarta-feira (19), no Fórum Augusto Teixeira de Freitas, em Cachoeira (BA) e se encerrou às 00h49 desta quinta-feira (20). O réu foi condenado e segundo a assistência de acusação inclui os crimes de feminicídio, ocultação de cadáver, ameaça com agravante por ter sido praticada contra uma mulher, extorsão e posse irregular de munição de uso permitido. A sentença tem 16 páginas.
O julgamento ocorreu após 3 adiamentos no período de quase dois anos, estiveram presentes familiares de Tainara, integrantes da comunidade quilombola de Acutinga Motecho, populares e organizações feministas de defesa dos direitos das mulheres.

UM DIA INTEIRO DE JULGAMENTO
Durante o início da audiência a defesa de George solicitou novamente o adiamento do julgamento, além de pedir a inserção de três policiais envolvidos na perícia do caso e a desclassificação do crime de feminicídio para homicídio qualificado. Entretanto, os pedidos foram negados, assim seguiu-se as oitivas. A tentativa de mudança da classificação do crime apresentada pela defesa do réu, se aceita, poderia alterar a consequência penal em caso de condenação.
Entre os primeiro depoimentos esteve um investigador da Polícia Civil Orlando de Cerqueira que ao longo de cerca de 1h de oitiva respondeu a defesa e acusação do réu, ao finalizar questionado pelo Ministério Público, ele afirmou: “a conclusão é que Tainara foi vítima de feminicídio e seu cadáver foi ocultado”.
No depoimento, o MP questionou o investigador sobre o trajeto realizado pelo feminicida no dia do desaparecimento. Segundo o relato apresentado em plenário, o acusado teria realizado o trajeto entre Cachoeira e o KM25, em Santo Amaro que tem um tempo estimado de 20 minutos de carro, em 1 hora. um tempo considerado incompatível.
Ainda segundo o depoimento, George teria alegado problemas de superaquecimento no veículo. O investigador então conta, que no dia seguinte, o mesmo carro teria realizado o trajeto até a Ilha de Itaparica sem apresentar problemas aparentes. Ao ser convocado para depoimento, George chegou a delegacia levado por um amigo, pois segundo o mesmo, o carro apresentou novamente falhas.
FAMÍLIA RELATA HISTÓRICO DE VIOLÊNCIAS
O irmão de Tainara, Denivaldo Santos, também prestou depoimento. Ele conta que na manhã do desaparecimento, ele viu a trancista e o George em Cachoeira, e bem próximo a eles haviam três homens desconhecidos e ligou para ela para alertá-la. Segundo Denivaldo, naquela tarde por volta das 15h, recebeu uma ligação do ex-cunhado afirmando ter deixado a sua irmã no KM25, ao chegar em casa a noite e notando a ausência de Tainara, ligou novamente para George que teria, segundo ele, enviado a imagem de uma mulher morta, mas ele apagou por não acreditar que pudesse se tratar de sua irmã.
A mãe da Trancista, Ana Alice, em depoimento relatou episódios anteriores de violência durante o relacionamento da filha com o ex-genro. “Ele tirou sangue dela na minha presença”, afirmou. Em outro momento, emocionada, Ana conta sobre a espera da família por respostas sobre o desaparecimento da filha: “Eu quero justiça pela minha filha em nome de todos que estão aqui, eu quero saber o que ele fez com a minha filha.” Segundo a mãe, as agressões também já haviam ocorrido na presença das filhas durante o relacionamento que mantiveram.
O ACUSADO E SEU SILÊNCIO
George começou a sua oitiva às 16h21 e encerrou o seu depoimento por volta de 16h57. Segundo a assistência de acusação, ele optou por responder apenas aos questionamentos dos próprios advogados, que eram em cinco homens, e dos 7 jurados, sendo questionado apenas por uma das júri. Nesse processo a pergunta era escrita num papel em branco pelo júri e o oficial de justiça entregava ao Juiz, que direcionava a pergunta ao réu.
Para a advogada Laina Crisóstomo, assistente de acusação, da Tamojuntas, o silêncio é um direito do réu. Ela afirmou, entretanto, que a acusação esperava que George respondesse às perguntas e pudesse indicar a localização do corpo de Tainara.
“É um direito, né? […] Ele decidiu não responder”, disse a advogada.
Laina também afirmou que, na avaliação da defesa do réu, houve durante o julgamento uma tentativa de desqualificar Tainara.
Segundo a advogada, a defesa de George apresentou argumentos que poderiam indicar uma possível associação da vítima ao tráfico de drogas. Para ela, a estratégia representou uma tentativa de construir uma narrativa sobre a vítima após sua morte.
ACUSAÇÃO E DEFESA APRESENTARAM VERSÕES DIFERENTES
O MP, junto a assistência de acusação, começou a sustentação às 17h25 e apresentou elementos relacionados à investigação, incluíndo mensagens e registros extraídos de conversas por aplicativo. A defesa de George, quando começou por volta das 19h10, buscaram “desconstruir o processo” apresentado pelo Ministério Público. Entre os argumentos esteve o questionamento de elementos da investigação.
Após as sustentações, Ministério Público e defesa realizaram as respectivas réplicas. O MP iniciou suas manifestações por volta das 21h13, encerrando as 22h14. A defesa iniciou a réplica às 22h20, encerrando às 23h20.
“A GENTE NUNCA SAI COM UMA SENSAÇÃO DE JUSTIÇA PLENA”
Para Amanda Oliveira, do Instituto Odara, organização que acompanhou o caso da quilombola, a condenação representa uma vitória dentro da disputa por justiça, embora não seja capaz de reparar a perda de Tainara. “Então hoje a gente sai daqui com a vitória sim, com a condenação, com uma pena extensa que era o que a gente esperava”, afirmou.
Amanda destacou ainda que a sentença menciona a possibilidade de reparação à família.
“A gente nunca sai com uma sensação de justiça plena porque a gente nunca, nessa disputa, ninguém vai ganhar, porque a gente já perdeu Tainara”, disse.
Segundo ela, a condenação também fortalece a discussão sobre a reparação às famílias de vítimas de feminicídio e sobre as falhas do Estado na proteção de mulheres negras e quilombolas.
“A JUSTIÇA FOI FEITA”
Essa frase, foi dita pelo Denivaldo, irmão de Tainara, a nossa reportagem. Afirmou que o resultado trouxe alívio para a família. “Rapaz, hoje eu tô feliz, né?, A justiça foi feita. Poderia estar feliz muito mais se minha irmã estivesse viva, mas não tá. Mas a justiça foi feita”. Para ele, a pena representa um alívio depois de quase dois anos de espera em meio a tantos adiamentos. “Esse tanto de ano que a gente pegou, é um alívio pra gente”, disse.
O FEMINICÍDIO É UMA EPIDEMIA
Dados sobre o feminicídio foram expostos pelo MP e assistência de acusação em sua exposição dos fatos para o júri. Em 2025, o Brasil registrou um recorde histórico 1.571 casos de feminicídio, média de quatro mortes por dia. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Mulheres negras demarcam 65,1% das vítimas.
A condenação de George acabou após mais de 15 horas, entre o início dos trabalhos e a leitura da sentença. Encerra também o pedido de justiça que ecoa a quase dois anos em meio a tantos adiamentos. Apesar da decisão judicial, o corpo de Tainara permanece sem ser localizado. Para Tainara Santos, mulher negra, quilombola, trancista e mãe, foi negada a oportunidade de viver, e nem mesmo na sua morte, ter seu próprio corpo velado. A cada crime de feminicídio, tal brutalidade arranca não só da vítima, mas, de toda sua família, amigos e comunidade um pouco de vida. A família de Tainara seguirá com essa triste história marcada em suas memórias.





