A realização da Copa do Mundo 2026 transformou o cenário esportivo em um terreno fértil para a expansão das plataformas de apostas online, conhecidas como bets. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) emitiu um alerta contundente sobre como a intensa mobilização emocional provocada pelo torneio tem exposto a população a estratégias agressivas de publicidade, atingindo tanto apostadores habituais quanto consumidores ocasionais em situação de vulnerabilidade.
O fenômeno é impulsionado por um formato de competição ampliado, que nesta edição conta com 48 equipes e um total de 104 partidas. Esse aumento no volume de jogos, aliado à facilidade de acesso via dispositivos móveis, cria uma dinâmica onde a paixão pelo futebol é frequentemente instrumentalizada para incentivar o consumo de jogos de azar, gerando preocupações crescentes sobre o superendividamento das famílias brasileiras.
Impacto econômico e o crescimento das apostas
Pesquisas do setor, como a realizada pela Softswiss, indicam que o volume global de apostas esportivas pode crescer pelo menos 50% em relação à edição de 2022. Estima-se que o montante movimentado salte de US$ 35 bilhões para cerca de US$ 52 bilhões. No Brasil, o cenário é acompanhado de perto por ferramentas como o Placar das Bets, da empresa Klavi, que utiliza dados do Open Finance para monitorar os gastos.
Desde o início de junho, os brasileiros já destinaram centenas de milhões de reais a essas plataformas. O gasto médio por apostador apresentou uma curva ascendente durante o transcorrer do torneio, evidenciando que a exposição constante a campanhas publicitárias e a expectativa de lucros rápidos têm alterado o comportamento financeiro de uma parcela significativa da população.
A ilusão de controle e os riscos psicológicos
Ahmed El Khatib, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que a complexidade das apostas modernas — que permitem palpites sobre cartões, escanteios e faltas — multiplica exponencialmente as possibilidades de jogo. Esse mecanismo explora a chamada “ilusão de controle”, onde o torcedor, por acreditar conhecer profundamente o esporte, subestima os riscos inerentes a uma modalidade baseada no azar.
O especialista alerta que o impacto não se limita ao prejuízo financeiro imediato. A transferência de renda para as casas de apostas retira recursos que seriam destinados ao consumo de bens e serviços essenciais, afetando o comércio varejista. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) já aponta que a inadimplência relacionada a esses gastos representa um desafio estrutural para a economia doméstica.
Necessidade de regulação e educação financeira
Diante do cenário, o Idec defende medidas mais rigorosas para conter a banalização das apostas. O instituto critica a insuficiência das regras atuais de publicidade e sugere que o país adote uma postura semelhante à aplicada a produtos como álcool e cigarro. A proposta é construir um ambiente regulado que priorize a proteção do consumidor e a saúde pública.
Entre as soluções apontadas por especialistas, destaca-se a implementação de campanhas permanentes de educação financeira e o uso de inteligência artificial pelas plataformas para identificar e suspender o acesso de apostadores compulsivos. A transparência sobre as probabilidades reais de ganho e a criação de redes de apoio são vistas como passos fundamentais para mitigar os danos sociais causados pela expansão desenfreada do setor.




