A artista brasileira Christina Oiticica, aos 75 anos, apresenta sua mais recente exposição na Itália, intitulada ‘When the Sky Invades the Earth’. A mostra reúne 60 obras que traduzem uma trajetória marcada pela fusão entre a sensibilidade humana e a força incontrolável da natureza.
Radicada em Genebra, a artista utiliza elementos como terra, água, fogo e luz para compor suas peças. O processo criativo de Oiticica desafia o controle absoluto do autor, permitindo que o ambiente externo atue diretamente sobre a matéria, transformando o acaso em um componente central de sua linguagem artística.
Para a autora, o título da exposição reflete uma profunda conexão espiritual. “Quando o céu invade a terra, o coração dos homens é transformado”, ressalta a artista sobre a interação entre o consciente e o inconsciente presente em seu trabalho.
A natureza como coautora das obras
O método de trabalho de Oiticica envolve expor suas telas a condições climáticas extremas por períodos que variam de dois a nove meses. Um exemplo notável é a pintura Mama Muxima, que permaneceu submersa no Lago Maggiore durante três meses, sendo moldada pelas ondas e tempestades locais.
A imprevisibilidade é o que motiva a artista. Ela admite que, ao retirar as obras da natureza, o resultado final é sempre uma surpresa, uma vez que o ambiente — seja a Amazônia, os Alpes ou o deserto — imprime marcas únicas em cada tela. Esse processo é comparado por ela a uma gestação, onde o tempo e o meio ambiente definem a forma final.
Identidade brasileira e parcerias internacionais
Mesmo vivendo no exterior, a identidade brasileira permanece central na produção de Christina. A exposição inclui trabalhos em parceria com o indígena pataxó Txa-txu, que foram enterrados sob uma gameleira sagrada na Bahia antes de integrarem o circuito artístico. Além disso, a mostra conta com a curadoria de Adelina von Fürstenberg, nome de prestígio internacional e vencedora do Leão de Ouro na Bienal de Veneza.
A curadora é reconhecida por levar a arte para além dos espaços tradicionais, como jardins e edifícios públicos. Esta parceria celebra os 30 anos da ONG ART for The World, instituição sediada em Genebra que utiliza a expressão artística como ferramenta de diálogo social e cultural, alinhando-se aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Reflexão e transformação através da arte
O objetivo de Oiticica não é oferecer respostas prontas, mas sim provocar sentimentos e reflexões individuais. Ao compartilhar o processo criativo com a natureza, ela busca que cada espectador estabeleça uma conexão própria com a obra.
A artista expressa o desejo de que o público sinta amor ao contemplar seu trabalho, acreditando que esse é o caminho para uma transformação pessoal. A exposição reforça a trajetória de décadas de Oiticica, consolidando uma carreira que transita entre a literatura, a espiritualidade e a arte contemporânea.





