A renomada escritora brasileira Nélida Piñon, falecida em dezembro de 2022 aos 85 anos, surpreendeu ao definir o destino de seu patrimônio imobiliário em testamento. A autora, que foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, determinou que seus apartamentos localizados no Rio de Janeiro servissem como refúgio vitalício para suas duas cachorras, Suzy e Pilara.
A decisão da escritora, que não teve filhos, estabeleceu uma restrição clara: os imóveis, situados em um prédio na Lagoa Rodrigo de Freitas, não poderiam ser comercializados enquanto os animais estivessem vivos. A administração do patrimônio ficou a cargo de sua assistente pessoal, Karla, que reiterou o status das pets como as verdadeiras herdeiras do espaço.
Nélida Piñon, que construiu uma trajetória literária marcada por mais de 20 obras, como A República dos Sonhos, faleceu em Lisboa, Portugal, após complicações decorrentes de uma cirurgia na vesícula. Em um gesto final de afeto, a escritora recebeu a visita de suas companheiras de quatro patas no hospital poucas horas antes de seu falecimento, uma permissão especial concedida pela unidade de saúde.
A vida e o refúgio de Nélida Piñon
O apartamento que serviu de moradia para a escritora era um reflexo de sua personalidade multifacetada. Em entrevista concedida em 2014, Nélida descreveu o imóvel como um arquivo vivo de sua trajetória. O espaço era repleto de obras de arte, objetos trazidos de viagens internacionais e uma decoração que, segundo ela, carregava o fundamento da humanidade através de suas histórias pessoais.
A autora, que sempre valorizou sua independência, explicou em vida que a escolha de não ter filhos foi consciente, motivada por um espírito aventureiro que não se adequaria à rotina da maternidade tradicional. Sua casa era, portanto, o centro de sua vida social, onde recebia amigos para jantares preparados por ela mesma, demonstrando uma paixão pela culinária que ia do bacalhau à rabada.
Legado literário da imortal
Além de sua atuação na Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon deixou uma vasta bibliografia que consolidou seu nome como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea. Entre seus títulos mais celebrados estão A Casa da Paixão, Vozes do Deserto e o livro de memórias Coração Andarilho. Sua obra continua a ser referência em estudos sobre identidade e memória, mantendo viva a voz da autora que, mesmo após sua partida, garantiu que seu lar continuasse a ser um porto seguro para suas fiéis companheiras.





