O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que o candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, teriam recebido ou deveriam receber 10% dos valores aportados no Banco Master por institutos de previdência. As informações são do colunista Cézar Feitoza, do UOL.
Segundo o relato de Vorcaro, a atuação dos dois teria ajudado o banco a captar recursos de fundos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).
O que diz a proposta de delação
De acordo com a terceira proposta de delação apresentada por Vorcaro, ACM Neto e Rueda teriam atuado para abrir as portas do Banco Master nos institutos de previdência do Rio, do Amapá e do Amazonas, além da Cedae. Segundo o banqueiro, essa movimentação teria resultado em captação de R$ 2 bilhões pelo Master.
Na versão de Vorcaro, uma comissão de 10% teria gerado obrigação de R$ 200 milhões com os dois políticos — mas o banqueiro não informou quanto teria sido efetivamente pago.
Segundo o documento, os pagamentos teriam sido frequentes a ponto de o Master manter uma espécie de conta corrente gerencial para ACM Neto e Rueda. Vorcaro também afirmou que os dois teriam intermediado negócios do banco, incluindo captação de investidores institucionais e articulação junto ao Banco de Brasília (BRB), mediante pagamento de vantagens indevidas.
Formas de pagamento descritas pelo banqueiro
Para ACM Neto, Vorcaro descreveu quatro formas de repasse: pagamentos em espécie por meio de recursos de empresas e pessoas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo; contratos entre a A&M Consultoria LTDA e o Banco Master; contratos entre a A&M Consultoria LTDA e a Reag; e contratos com a B6 Capital, gestora ligada a ACM Neto.
No caso de Rueda, os pagamentos teriam ocorrido em espécie, por meio de empresas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo, e por contratos entre empresas do Master e o escritório Rueda & Rueda Advogados — que, somados, previam cerca de R$ 3 milhões por mês, segundo o relato do banqueiro.
Relação descrita com o BRB
A proposta também descreve uma reunião entre Vorcaro, Rueda e Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, na casa de Rueda, em Brasília, em junho de 2024. Segundo o relato, Rueda e Costa teriam pedido que Vorcaro conseguisse, em dois ou três dias, cerca de R$ 1 bilhão para cobrir um aumento de capital do BRB.
Vorcaro afirmou que Costa teria se comprometido a comprar ativos do Master por até dez vezes o valor investido pelo banqueiro. O grupo de Vorcaro teria aportado cerca de R$ 750 milhões no BRB, que, no mesmo período de 2024, teria comprado cerca de R$ 6 bilhões em carteiras do Master. Segundo o banqueiro, Rueda e Costa passaram a exigir comissão de 10% sobre os valores desembolsados pelo BRB, a ser dividida entre Rueda, Costa e ACM Neto.
Valores aplicados pelos fundos
Os dados citados na reportagem apontam que quatro instituições aplicaram cerca de R$ 3,62 bilhões no Banco Master: o Rioprevidência aplicou R$ 2,97 bilhões entre 2023 e 2025; a Amprev, do Amapá, R$ 400 milhões; a Cedae, R$ 200 milhões; e a Amazonprev, R$ 50 milhões. O total é superior aos R$ 2 bilhões mencionados por Vorcaro, e o documento não explica a diferença.
O que ainda não está claro
A proposta não informa quanto teria sido efetivamente repassado a ACM Neto e Rueda. Das seis formas de pagamento descritas por Vorcaro, apenas uma tem valor associado: os contratos com o escritório Rueda & Rueda Advogados, de cerca de R$ 3 milhões mensais. O documento também não detalha quanto cada fundo de previdência aplicou nem aponta ato específico de ACM Neto ou Rueda junto às instituições — a proposta afirma apenas que os dois teriam “intermediado” os investimentos.
Dados de quebra de sigilo bancário e fiscal do Master e relatórios do Coaf entregues à CPI do Crime Organizado mostram que Vorcaro repassou R$ 6,4 milhões para escritórios ligados a Rueda entre 2022 e 2025 — valor menor que o relatado na proposta de delação. A empresa de consultoria de ACM Neto aparece nas planilhas com R$ 5,4 milhões recebidos entre 2023 e 2025.
Propostas de delação foram rejeitadas
As propostas de delação de Vorcaro foram negadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), sob alegação de falta de informações inéditas e ausência de garantias para devolução de valores relacionados às fraudes. O banqueiro tenta reabrir as negociações para uma colaboração premiada.
ACM Neto e Rueda negam irregularidades
Procurado pela reportagem, Rueda — candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro e presidente do União Brasil — afirmou ter “dificuldade em se pronunciar sobre documento ao qual não teve acesso” e negou irregularidades.
ACM Neto, candidato ao governo da Bahia pelo União Brasil, classificou as acusações como “insinuações absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas”.





