O cenário atual da indústria de videogames tem sido marcado por desafios significativos. Observa-se um período de instabilidade, com demissões em massa ocorrendo mesmo após lançamentos bem-sucedidos e o fechamento de estúdios com legados históricos. Além disso, a crise de componentes, impulsionada pela demanda de data centers para inteligência artificial generativa, tem contribuído para o aumento dos custos de produtos e serviços.
Neste contexto complexo, o título Denshattack, desenvolvido pelo estúdio Undercoders, de Barcelona, emerge como um ponto de luz. O jogo tem sido elogiado por sua autenticidade, diversão e carisma, lembrando aos jogadores o motivo inicial de sua paixão por videogames. Ele se destaca por não temer ser “esquisito” em um mercado que, muitas vezes, sacrifica a criatividade em prol de margens de risco reduzidas.
A proposta de Denshattack é singular, inspirada em jogos arcade da SEGA de um período marcante entre o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000. A ideia de realizar manobras radicais com um trem em alta velocidade, já cativante em sua demonstração, revela-se ainda mais robusta na versão completa. O jogo demonstra uma segurança notável em sua execução, surpreendendo ao longo de toda a campanha. Considerado um dos lançamentos mais interessantes e imperdíveis do período, o game está disponível para PC (via Steam), PS5, Xbox Series X, Xbox Series S e outras plataformas atuais.
Narrativa imersiva e um universo distópico
Denshattack é estruturado em fases que permitem aos jogadores realizar diversas atividades secundárias e acumular pontos por sua performance. A ação é conduzida por uma narrativa envolvente, ambientada em um Japão pós-crise climática, que se tornou uma distopia capitalista controlada pela megacorporação Miraido.
Nesse futuro, a população reside em cidades-domo, acessíveis apenas para aqueles que podem pagar. Os trens se tornaram o único meio de transporte entre essas cidades, e a Miraido exerce um poder político tão grande que pode revogar a cidadania de indivíduos que tentam viajar por outros meios. A empresa justifica sua postura com um discurso rígido, alegando que o mundo exterior e seus habitantes são “contaminados”.
Essa realidade, combinada com a omissão governamental, deu origem a uma cultura marginalizada de trens fora das cidades-domo e ao surgimento de gangues que controlam seus próprios territórios, todas com o objetivo de derrubar a Miraido. Os jogadores assumem o controle de Emi Araki, uma entregadora de lámen com habilidades notáveis que descobre os Denshattackers. Ela se interessa pelo movimento e desafia líderes de gangues por todo o Japão para aprimorar suas próprias capacidades.
O jogo apresenta um elenco de personagens carismático, evidenciando o esforço da desenvolvedora em construir um mundo rico em detalhes. A conclusão de objetivos nas fases recompensa os jogadores com colecionáveis que aprofundam as histórias dos personagens, incluindo diálogos opcionais e uma fanzine. Esta fanzine oferece curiosidades sobre as regiões visitadas, histórias de origem de personagens-chave, e a filosofia por trás de cada gangue do jogo.
Apesar de uma apresentação simples, no estilo visual novel, com curtas cenas animadas, o cuidado da desenvolvedora em criar este mundo, habitado por personagens estilosos e participativos, é uma das grandes qualidades de Denshattack. A profundidade da narrativa e do universo surpreendeu, superando as expectativas geradas pelos materiais de divulgação iniciais do game.
Denshattack: Jogabilidade inovadora e profundidade estratégica
Quando Denshattack foi revelado, uma das principais questões era como um jogo focado em ação sobre trilhos poderia ser variado e divertido o suficiente para sustentar uma experiência completa. Bastam poucas fases com o controle em mãos para perceber a imersão na premissa do jogo, que se mostra cativante desde o início.
Muitos descrevem Denshattack como um “Tony Hawk com trens”, devido à capacidade da locomotiva de saltar e realizar manobras típicas do esporte para pontuar. No entanto, uma comparação mais precisa seria com um jogo de ritmo, onde a satisfação de superar obstáculos é similar à de acertar uma nota musical, exigindo compasso e reflexos apurados do jogador.
O gameplay permite derrapar em curvas, deslizar sobre corrimãos e executar uma vasta gama de manobras aéreas com o analógico direito, quase como em um jogo de luta com sua lista intimidadora de comandos. Curiosamente, realizar movimentos erráticos no analógico frequentemente resulta em manobras diferentes. O crucial é prestar atenção na aterrissagem, pois a manobra só é bem-sucedida se concluída antes de tocar os trilhos novamente.
O jogo se aprofunda ao introduzir, nas primeiras horas, a mecânica Yaoyorozudo (八百万道, ou Miríade de Caminhos). Ao preencher uma barra na tela, essa mecânica é revelada, destravando rotas e mecanismos alternativos nas fases. Isso eleva significativamente o fator replay, oferecendo uma quantidade impressionante de maneiras de atravessar os percursos, com novas descobertas a cada tentativa.
A partir daí, Denshattack continua a surpreender, apresentando mecânicas novas e divertidas do início ao fim. Há momentos em que o jogo subverte completamente as expectativas, especialmente nos mundos finais, com formas inusitadas e geniais de jogabilidade. As diferentes modalidades de estágios, que incluem corridas contra rivais, desafios de pontuação, pequenos sandboxes com objetivos variados e batalhas contra chefes, coroam a experiência.
Estilo visual vibrante e trilha sonora estelar
A apresentação de Denshattack, tanto visual quanto sonora, é um dos pilares que enriquecem a experiência. O jogo utiliza gráficos estilo cell-shading para simular um anime tridimensional, resultando em cenários e objetos coloridos e visualmente impactantes. A estética é bonita e, crucialmente, estável, garantindo boa visibilidade e desempenho para superar os desafios.
Embora ocasionalmente o ângulo da câmera não otimize a legibilidade de elementos importantes do cenário, esses pequenos detalhes não comprometeram a experiência geral. Espera-se que futuras atualizações possam aprimorar esses aspectos, mas não houve travamentos ou frustrações significativas durante o gameplay.
A trilha sonora é outro grande destaque do jogo. A participação de Tee Lopes, conhecido por seus trabalhos em títulos como Sonic Mania, Streets of Rage 4, Metal Slug Tactics e Marvel Cosmic Invasion, já era um forte indicativo da qualidade musical. O estúdio Undercoders e a publicadora Fireshine Games garantiram a colaboração de convidados ilustres.
Entre os nomes de peso, destaca-se uma música inédita de Takenobu Mitsuyoshi, da icônica trilha sonora de Daytona USA. A lista inclui também Ryo Nagamatsu (Splatoon), Richard Jacques (Sonic R), Shoji Meguro (Persona), Kohta Takahashi (Klonoa), e 2 Mello (Bomb Rush Cyberfunk), formando um elenco estelar que eleva a imersão auditiva do jogo.





