Em um paradoxo notável, alguns dos principais nomes por trás das tecnologias que moldaram o mundo digital, como smartphones e redes sociais, estão adotando medidas rigorosas para proteger seus próprios filhos do uso excessivo de eletrônicos. Essa postura dos líderes da indústria de tecnologia reflete uma crescente preocupação global com o tempo que crianças e adolescentes dedicam às telas, impulsionando debates e ações legislativas em diversos países.
A decisão de impor limites estritos em casa, conforme destacado por veículos como a Fortune, sublinha a complexidade da relação entre a inovação tecnológica e seus impactos no desenvolvimento infantil. Enquanto suas criações se tornam onipresentes, esses executivos reconhecem a necessidade de moderação para as novas gerações.
Líderes da tecnologia estabelecem regras para o tempo de tela infantil
Um dos exemplos mais proeminentes é o de Peter Thiel, primeiro grande investidor do Facebook e cofundador do PayPal. Para seus dois filhos pequenos, Thiel permite o uso de telas por apenas 1 hora e 30 minutos por semana, controlando rigorosamente o acesso a smartphones e tablets. Essa revelação, feita durante um evento em 2024, causou surpresa na plateia, evidenciando a seriedade de sua abordagem.
A filosofia de restrição é compartilhada por outros magnatas da tecnologia. Evan Spiegel, CEO da Snap e bilionário mais jovem do mundo em 2015, também limitava o tempo de tela semanal de seu primeiro filho a 1 hora e 30 minutos. O cofundador da Microsoft, Bill Gates, adotou uma política semelhante, proibindo seus filhos de usar celulares antes dos 14 anos e vetando a presença de portáteis à mesa de jantar.
Mesmo o cofundador da Apple, Steve Jobs, estabeleceu regras comparáveis, declarando em 2010 que seus filhos não haviam usado o iPad para evitar o tempo de tela excessivo. Mais recentemente, Shou Zi Chew, CEO do TikTok, afirmou que seus filhos são muito jovens para usar o popular aplicativo de vídeos curtos, embora tenha considerado exceções com configurações de proteção de menores, como as aplicadas nos Estados Unidos, que incluem a ausência de anúncios e a proibição de publicação para menores de 13 anos.
Outro nome que expressou preocupação é Steve Chen, cofundador do YouTube, que proíbe seus filhos de assistirem a vídeos curtos, acreditando que o formato pode reduzir a capacidade de atenção e prejudicar o desenvolvimento cerebral. Até mesmo Elon Musk, por sua vez, já manifestou arrependimento por não ter limitado o uso de redes sociais pelos próprios filhos.
Preocupações crescentes com o impacto do uso excessivo de telas
A postura desses líderes reflete um consenso crescente na comunidade científica e entre educadores sobre os riscos do uso desregulado de telas. Um estudo realizado em 2025, envolvendo 100 mil pessoas, associou o acesso frequente a vídeos curtos a um baixo desempenho cognitivo e a declínios na saúde mental. Esses problemas podem afetar indivíduos de diversas faixas etárias, incluindo adultos e idosos, mas são particularmente preocupantes em crianças e adolescentes em fase de desenvolvimento.
Nos Estados Unidos, dados da Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente indicam que usuários entre 8 e 18 anos passam, em média, cerca de 7 horas e 30 minutos por dia assistindo ou utilizando telas. Essa tendência de aumento intensificou-se nos últimos anos, levando ao surgimento do termo “crianças do iPad”, que descreve a geração que cresceu imersa em dispositivos digitais.
Respostas globais à dependência digital em jovens
Diante desse cenário, a preocupação com a dependência digital e seus efeitos levou diversos países a considerar ou implementar legislações para proteger os jovens. Austrália e Malásia estão entre as primeiras nações a anunciar o veto ao uso de redes sociais por menores de 16 anos. França, Reino Unido e Dinamarca também planejam leis semelhantes, sinalizando uma movimentação global para regular o acesso de crianças e adolescentes a plataformas digitais.
Essas iniciativas legislativas, combinadas com as restrições parentais adotadas pelos próprios criadores de tecnologia, reforçam a urgência de um debate mais amplo sobre o papel da tecnologia na vida dos jovens e a necessidade de um equilíbrio saudável entre o mundo digital e o desenvolvimento integral.





