A Bahia, já reconhecida por sua proeminência no setor energético, especialmente em fontes renováveis como eólica e solar, além de petróleo e gás natural, está vivenciando uma transformação significativa em sua matriz. Impulsionada por cenários geopolíticos globais e a crescente demanda por soluções energéticas mais sustentáveis, o estado emerge como um polo estratégico na produção de biocombustíveis, com plantas e grãos assumindo um papel de liderança.
Essa mudança não apenas fortalece a segurança energética local e nacional, mas também posiciona a Bahia na vanguarda da inovação, explorando o vasto potencial de sua agricultura para gerar combustíveis verdes e reduzir a dependência de derivados de petróleo, que ainda representam um custo considerável para o estado.
A Busca por Autonomia Energética e os Impactos Geopolíticos
O cenário global, marcado por instabilidades como os ataques bélicos no Oriente Médio iniciados em fevereiro, ressaltou a vulnerabilidade da dependência de combustíveis externos. Embora o Brasil seja um grande produtor de petróleo, a deficiência no refino gera uma cadeia produtiva dependente e custos elevados. A Bahia, por exemplo, importa uma parcela significativa de derivados de petróleo, evidenciando a urgência de diversificar suas fontes energéticas.
Nesse contexto, a biomassa surge como uma solução promissora. Conforme explica Ednildo Andrade, coordenador do Laboratório de Energia e Gás (LEN) da Escola Politécnica da UFBA, investir em biomassa não só produz energia, mas também contribui para a retenção de carbono, diminuindo o CO2 na atmosfera. Essa abordagem permite a produção de etanol e até mesmo Combustível Sustentável de Aviação (SAF) a partir de diversas oleaginosas.
Grãos como Ouro Verde: Soja e Milho Impulsionam a Produção
Os biocombustíveis, componentes energéticos derivados de biomassa renovável, como cana-de-açúcar, soja e milho, representam alternativas sustentáveis aos combustíveis fósseis. Na Bahia, culturas como milho, soja, sorgo, macaúba e agave tequilana são as grandes apostas para o mercado de energia.
O estado tem demonstrado uma robustez notável no mercado de grãos. A soja, que constitui uma parte considerável das exportações baianas, projeta um novo recorde de produção, superando 14 milhões de toneladas. O milho também apresenta um crescimento expressivo, com a primeira safra estimada em mais de 2 milhões de toneladas e uma projeção total de 2,74 milhões de toneladas, um aumento significativo na comparação anual.
Carlos Danilo, especialista em desenvolvimento industrial de energia da Federação de Indústria do Estado da Bahia (FIEB), destaca que, apesar do protagonismo da Bahia na energia limpa, menos de 20% de seu potencial energético é explorado. Ele ressalta o avanço das pesquisas com oleaginosas, como a macaúba e a agave, especialmente no sertão baiano.
Inovação e Investimento: A Biorrefinaria Inpasa e o Sorgo
A concretização desse potencial é visível em projetos como a biorrefinaria Inpasa, localizada em Luís Eduardo Magalhães, no Oeste Baiano. Com um investimento de aproximadamente R$ 1,3 bilhão, a unidade, que iniciou suas operações este ano, tem capacidade para processar 1 milhão de toneladas de grãos anualmente. A planta prevê a produção de 460 milhões de litros de etanol, 230 mil toneladas de DDGS (coproduto para ração animal), 23 mil toneladas de óleo vegetal e 200 GWh de energia elétrica por ano.
Além da soja e do milho, o sorgo emerge como uma cultura estratégica. Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicam que a produção de sorgo deve se expandir devido ao seu alto potencial, especialmente em condições de déficit hídrico e baixa fertilidade do solo, onde outras culturas teriam dificuldades. Flavio Peruzzo, vice-presidente de Negócios e Originação da Inpasa, afirma que a Bahia tem respondido prontamente ao cultivo do sorgo, que já está sendo processado para a produção de etanol e DDGS, além da exportação.
O Potencial Global do Sorgo e a Oportunidade Baiana
O Brasil já ocupa a terceira posição mundial na produção de sorgo, atrás apenas da Nigéria e dos Estados Unidos. A resiliência do cereal a condições climáticas adversas, como secas prolongadas, o torna uma alternativa valiosa para a diversificação agrícola. Essa característica é crucial para a segurança alimentar e energética, especialmente em regiões com desafios hídricos.
A recente abertura do mercado chinês para a importação de sorgo representa uma oportunidade sem precedentes para a Bahia. Com um potencial de cultivo significativo, o estado pode se beneficiar dessa demanda global, garantindo mais uma fonte de renda para os agricultores e fortalecendo sua posição como um hub de energia verde e agronegócio sustentável.




