‘Namíbia, Não!’ retorna a Salvador em edição comemorativa de 15 anos no Teatro Sesc Casa do Comércio

Espetáculo que inspirou o filme "Medida Provisória" terá duas apresentações exclusivas nos dias 14 e 15 de abril sob direção de Lázaro Ramos

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Peça Namibia
Foto: Divulgação/Victor Balde

O aclamado espetáculo ‘Namíbia, Não!’, um marco da dramaturgia negra contemporânea, retorna a Salvador para celebrar seus 15 anos de trajetória. As apresentações ocorrem nos dias 14 e 15 de abril de 2026, às 20h, no Teatro Sesc Casa do Comércio. Com texto de Aldri Anunciação e direção de Lázaro Ramos, a montagem já circulou por mais de 20 cidades brasileiras e palcos internacionais em Londres, Alemanha e Portugal, acumulando um público superior a um milhão de espectadores. Os ingressos para as sessões comemorativas já estão disponíveis na plataforma Sympla.

  • Trajetória de Sucesso: Vencedora do Prêmio Jabuti (2013) na categoria juvenil, a obra deu origem ao filme “Medida Provisória” (2022).
  • Vozes de Peso: A peça conta com participações em off de ícones como Wagner Moura, Léa Garcia, Suely Franco e Pedro Paulo Rangel.
  • Protagonismo: No palco, Aldri Anunciação e Jhonny Salaberg interpretam os primos Antônio e André, confinados em um apartamento.
  • Impacto Cultural: A montagem consolidou o termo “Melanina Acentuada” como categoria de análise no teatro e na sociologia brasileira.

O fenômeno do confinamento e a distopia real

A trama de ‘Namíbia, Não!’ gira em torno de uma medida provisória hipotética do governo brasileiro que obriga todos os cidadãos de “melanina acentuada” (negros) a serem deportados para países da África. O enredo, que mistura humor ácido e crítica social profunda, foca no confinamento dos primos Antônio e André enquanto aguardam o desenrolar da crise. Para o autor Aldri Anunciação, o espetáculo permanece atual diante do endurecimento das políticas migratórias globais.

“O espetáculo trabalha com um desenho de vozes (vozes ‘fantasmas’ e vozes muito reais) que pressionam as personagens por dentro da narrativa. E uma dessas vozes é a voz do poder, uma voz opressora, que determina a execução da Medida Provisória — essa ideia brutal de exigir que pessoas negras ‘retornem’ à África em pleno século XXI. Dramaturgicamente, essa voz é decisiva porque ela materializa a máquina do Estado e fecha o cerco, empurra as personagens para o limite e participa diretamente do desfecho do conflito. E aí entra a importância de personagens como o de Wagner Moura, que empresta a essa figura um timbre de autoridade e uma densidade interpretativa que tornam o dispositivo ainda mais forte. Outras participações em off, como a de Léa Garcia, que é um ícone do teatro, cinema e TV do Brasil e pioneira abrindo o caminho para toda uma geração, traz ainda mais nostalgia à peça“, explica Aldri.

Peça Namibia
Foto: Divulgação/Victor Balde

Do palco para as telas e livrarias

A longevidade da obra é explicada por sua capacidade de transitar entre diferentes linguagens. Após o sucesso nos teatros, o texto foi adaptado para a literatura, conquistando o Prêmio Jabuti, o mais importante reconhecimento literário do país. Em 2022, a história alcançou o grande público com o longa-metragem “Medida Provisória”, dirigido por Lázaro Ramos, que se tornou a segunda maior bilheteria nacional daquele ano, atingindo quase 500 mil espectadores nos cinemas.


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“Melanina Acentuada” como manifesto político

O termo “melanina acentuada”, criado por Aldri para a peça, extrapolou os limites da ficção. Hoje, a expressão dá nome a uma produtora, um ecossistema de narrativas negras e é objeto de pesquisas acadêmicas sobre o corpo negro na política. Segundo o autor, o termo foi uma ironia dramática para deslocar a conversa do rótulo racial para o mecanismo biológico e o racismo estrutural exercido pelo Estado.

“Melanina” nasce dentro da obra como um gesto dramaturgicamente prático e politicamente irônico. Em num momento em que se discutia muito como nomear a negritude (preto, negro, etc.), eu crio um termo próprio ‘melanina acentuada’ que desloca a conversa do rótulo para o mecanismo do racismo, e ainda lembra que melanina é um elemento biológico humano (em diferentes gradações). Essa expressão entra no próprio enredo como critério absurdo de perseguição estatal. E ela extrapola o palco porque vira linguagem de rede, dá nome a uma plataforma e a um ecossistema de produção/circulação de narrativas negras, com festival e portal. No campo acadêmico, isso também vira chave de leitura, com pesquisas e dissertações que mobilizam a obra e a discussão de ‘melanina acentuada’ como categoria para pensar teatro negro contemporâneo e política do corpo”, explica. 

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