Junho de 1822. Enquanto a capital Salvador amargava o terror militar e o cerco de armas imposto pelo general português Madeira de Melo para calar as instituições baianas, o Recôncavo respirava rebeldia e articulação política. Diferente do que propaga a historiografia tradicional e de massa, a emancipação política do Brasil não foi um ato pacífico, isolado ou performado às margens do Riacho do Ipiranga, em São Paulo. Ela foi pavimentada, de forma armada e institucional, no solo da então Vila de Nossa Senhora da Purificação e Santo Amaro.
Em entrevista exclusiva para o Portal InstantBA, a historiadora e professora Ilmara Cecília explicou o impacto da célebre ata de vereação assinada na Câmara Municipal de Santo Amaro no dia 14 de junho de 1822. Segundo a pesquisadora, o ato político representou uma ruptura drástica e corajosa com a metrópole.
“Na ata do 14 de junho, Santo Amaro declara apoio incondicional a Pedro I. Independente de quem fosse entrar na luta, Santo Amaro já estava dizendo que ou a gente vai ser um povo soberano ou a gente não vai ser mais parte desse povo. […] O pioneirismo é nosso”, pontuou Ilmara.
A historiadora trouxe à tona documentos recentes que jogam luz sobre a geopolítica do Recôncavo na época, revelando que a adesão de outras cidades vizinhas não foi imediata. De acordo com as cartas e registros analisados pela Doutora Patrícia Santos e compartilhados com a Professora Ilmara Cecília, a vila de Cachoeira mantinha uma postura cautelosa antes de deflagrar seu levante no dia 25 de junho. A força armamentista de Santo Amaro e de territórios como São Francisco do Conde e Saubara foi o fator decisivo para garantir o sucesso da resistência regional contra as embarcações de guerra portuguesas no Rio Paraguaçu.
Xenofobia estrutural e a necessidade de um Projeto Pedagógico Regional
Um dos pontos centrais do debate foi a ausência desses marcos históricos nos livros didáticos de circulação nacional. Para a professora Ilmara Cecília, o apagamento do papel da Bahia na consolidação da Independência — que só se tornou efetiva com a expulsão definitiva dos portugueses em 2 de julho de 1823 — reflete uma centralização econômica e cultural no eixo Sul-Sudeste do país.
“Essa pergunta sua revela o histórico nacional da xenofobia. […] Esse olhar voltado para um eixo exclusivo tirou de nós esse pioneirismo que é dizer que o 7 de setembro só ocorre por conta da Bahia, por conta de Santo Amaro. Se o Brasil hoje é um país soberano, ele deve prioritariamente a Santo Amaro”, enfatizou a historiadora.
Como solução para resgatar o senso de pertencimento e valorizar a identidade de Santo Amaro, cuja formação histórica é intrinsecamente ligada à população negra, Ilmara defende a urgência de uma reforma no Projeto Político-Pedagógico (PPP) das escolas do município. A pesquisadora reforça a necessidade de implementação de materiais didáticos e cartilhas autônomas focadas na história local, alinhadas às diretrizes das leis de ensino de história e cultura afro-brasileira.



