O cenário global de cooperação financeira atravessa um momento crítico. O volume de recursos destinados por países ricos a nações em desenvolvimento e instituições multilaterais sofreu uma retração de 23,1% na transição de 2024 para 2025, configurando a maior queda já documentada na história recente. O montante, que totalizou US$ 174,3 bilhões no ano passado, representa uma redução real de US$ 52,4 bilhões, consolidando o segundo ano consecutivo de declínio no auxílio global.
Os dados integram o estudo Financiamento para o Desenvolvimento, produzido pelo Brics Policy Center, vinculado à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). A análise, que utiliza informações do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD) da OCDE, projeta um cenário ainda mais restritivo para o futuro próximo. A expectativa dos pesquisadores é de uma redução adicional de 6,9% em 2026, o que faria o patamar de auxílio retornar aos níveis registrados em 2014.
Geopolítica e a retração da ajuda internacional
A responsabilidade pelo corte é concentrada. Embora o comitê seja composto por 33 nações e pela União Europeia, apenas cinco grandes doadores — França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos — foram responsáveis por 95,7% da redução total observada. Os Estados Unidos lideram esse movimento, com um corte de 56,9% em seus repasses, respondendo sozinhos por 75,1% da diminuição global.
O movimento coincide com o início do mandato de Donald Trump, cuja administração tem adotado uma postura cética em relação ao multilateralismo. Paralelamente, o redirecionamento de verbas nacionais para setores de defesa e segurança energética tem drenado o orçamento que anteriormente seria destinado ao desenvolvimento internacional. Na União Europeia, por exemplo, os investimentos em energia quase dobraram na última década, saltando de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025.
Prioridades estratégicas e o caso da Ucrânia
Apesar da tendência de queda, a distribuição dos recursos remanescentes revela uma redefinição de prioridades estratégicas. A Ucrânia permanece como o maior recebedor individual de Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) da história. Mesmo com a redução de 91% nos aportes diretos dos Estados Unidos, o país foi amparado por um esforço conjunto de 23 nações e instituições da União Europeia, que elevaram seus envios em 65,2%.
Essa seletividade também se reflete no suporte a instituições multilaterais. Enquanto o financiamento ao sistema da ONU sofreu uma queda recorde de 27%, o apoio ao Banco Mundial cresceu 6,4%, e os bancos regionais de desenvolvimento registraram alta de 11,9%. Segundo o relatório, os governos doadores estão reavaliando quais engajamentos multilaterais são considerados estratégicos para a preservação de seus interesses nacionais.
Impactos humanitários e projeções futuras
As consequências sociais dessa retração são alarmantes. Com base em dados da Oxfam, o estudo estima que os cortes realizados apenas em 2025 podem estar associados a 695.238 mortes em excesso. Caso a trajetória de redução se mantenha, as projeções indicam um cenário ainda mais grave, com o potencial de causar mais de 9,4 milhões de óbitos até 2030.
A África Subsaariana emerge como a região mais vulnerável, tendo enfrentado uma redução de 23% nos recursos recebidos em 2025. Para 2026, a previsão é de um novo corte de 11,6%. Diante da escassez, o documento defende que a comunidade internacional adote estratégias mais coordenadas, priorizando o direcionamento de verbas aos países mais pobres e tornando a ajuda mais eficaz frente aos desafios globais, como o financiamento climático, que exige recursos na casa do trilhão de dólares. Para mais detalhes técnicos, consulte o estudo completo.





