O diagnóstico do influenciador Lito Sousa com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) trouxe à tona discussões sobre uma das condições mais raras e complexas da neurologia. Para esclarecer os mecanismos biológicos e o atual estágio das pesquisas, o médico Pedro Andrade, doutorando em Genômica pela USP e coordenador de pós-graduação em Medicina de Precisão, detalhou os aspectos científicos que envolvem essa enfermidade degenerativa.
A DCJ é caracterizada por uma degeneração cerebral extremamente rápida, afetando, em média, uma ou duas pessoas a cada milhão por ano. Segundo o especialista, a patologia está ligada a uma proteína chamada PrP, codificada pelo gene PRNP. Quando essa proteína assume uma conformação anormal, ela desencadeia um efeito dominó molecular, levando à morte dos neurônios e à perda progressiva de funções cerebrais.
Mecanismos e causas da degeneração cerebral
A maioria dos casos de DCJ é classificada como esporádica, o que significa que não há uma mutação genética hereditária identificada ou uma fonte de contaminação externa conhecida. Em situações raras, a doença pode ser causada por alterações genéticas no gene PRNP ou, em casos excepcionais, por procedimentos médicos ou variantes associadas a contaminações externas, como a doença da vaca louca.
O processo de envelhecimento é apontado como um fator relevante para a forma esporádica, que incide majoritariamente na segunda metade da vida. O médico explica que, com o passar dos anos, a capacidade das células de manter o controle de qualidade das proteínas — um sistema conhecido como proteostase — pode ser comprometida, tornando o cérebro mais vulnerável a falhas no dobramento proteico.
A busca por tratamentos e o papel da ciência
Atualmente, a medicina não dispõe de um tratamento comprovado capaz de interromper ou curar a doença de Creutzfeldt-Jakob, sendo o atendimento focado em medidas de suporte ao paciente. Contudo, a pesquisa científica tem explorado novas frentes de ação, como a redução da produção da proteína PrP normal antes que ela se torne patológica.
Estratégias experimentais, como o uso de oligonucleotídeos antisenso (a exemplo do composto ION717) e RNA de interferência, buscam atuar diretamente na origem da propagação proteica. O objetivo dessas abordagens é reduzir o combustível necessário para a progressão da doença, embora o especialista ressalte que ainda não é possível afirmar se tais métodos serão eficazes em humanos.
Desafios no diagnóstico e prevenção
Um dos maiores obstáculos enfrentados pela medicina é o tempo. Quando os sintomas clínicos se tornam evidentes, uma parcela significativa de neurônios já foi comprometida, o que limita a eficácia de intervenções tardias. A esperança futura reside na medicina de precisão, que poderia permitir a identificação e intervenção precoce, especialmente em indivíduos com mutações genéticas conhecidas.
Quanto à prevenção, não há métodos comprovados para evitar a forma esporádica da DCJ. Não existem evidências de que hábitos, dietas ou exposições ambientais específicas sejam responsáveis pelo surgimento da condição. A ciência continua investigando como fatores como o expossoma e a epigenética podem interagir com a biologia individual, mantendo uma abordagem cautelosa sobre as causas ainda desconhecidas. Mais informações sobre o tema podem ser acompanhadas em fontes especializadas como o site da Organização Mundial da Saúde.





