A rápida integração de tecnologias digitais e da inteligência artificial (IA) no cotidiano escolar demanda uma mudança de paradigma. Segundo a educadora Daniela Costa, consultora da Unesco para o Brasil, a simples oferta de dispositivos eletrônicos em sala de aula é insuficiente. O foco atual deve migrar para a promoção de uma inclusão digital que seja, acima de tudo, significativa e pautada pelo pensamento crítico.
A especialista, que coordena a pesquisa TIC Educação, enfatiza que o debate não deve se restringir à entrega de equipamentos. É imperativo que instituições e educadores estabeleçam objetivos claros, compreendam os riscos e identifiquem as oportunidades pedagógicas que a tecnologia oferece, preparando os estudantes para um uso consciente e ético das ferramentas digitais.
Desafios e impactos do uso de tecnologia na aprendizagem
Durante o 4º Encontro de Educadores do Século XXI, realizado no Rio de Janeiro, Daniela Costa apresentou um panorama contrastante. Enquanto experiências internacionais, como o uso de videoaulas na China, demonstraram melhorias significativas no desempenho de estudantes rurais e na redução de desigualdades, o cenário brasileiro enfrenta obstáculos relacionados à distração e à perda de foco.
Dados apontam que a simples presença de aparelhos celulares em sala de aula gera impactos negativos na aprendizagem em diversos países. Em resposta a essa realidade, o Brasil implementou a Lei Federal 15.100, de janeiro de 2025, que restringe o uso de dispositivos móveis durante aulas e intervalos. Levantamentos do Cetic.br indicam que a adoção dessas regras varia conforme o nível de ensino, sendo mais rigorosa nos anos iniciais e mais flexível no ensino médio.
Mudanças no comportamento de pesquisa dos estudantes
A forma como os alunos buscam conhecimento também passou por uma transformação profunda. Atualmente, 89% dos estudantes do ensino médio recorrem a plataformas de vídeo, como YouTube e TikTok, como principal fonte de pesquisa para trabalhos escolares. Essa transição da linguagem verbal para a visual altera a dinâmica do aprendizado e exige novas abordagens didáticas.
O uso de sites de busca, como o Google, aparece logo em seguida, com 88% de adesão, seguido por enciclopédias digitais e plataformas de inteligência artificial. Contudo, a especialista alerta para uma lacuna preocupante: apenas um terço dos estudantes relata ter recebido orientações sobre como identificar erros, vieses ou informações incorretas geradas por sistemas de IA.
Valorização da formação docente e compromisso social
Os professores permanecem como a principal referência para os alunos no uso de tecnologias, com um aumento na busca por orientação docente entre 2022 e 2024. Apesar desse protagonismo, o cenário de formação continuada é alarmante. A proporção de professores que realizaram cursos sobre tecnologias digitais caiu de 65% em 2021 para 54% em 2024.
Para Daniela Costa, a descontinuidade no investimento em capacitação após o período da pandemia é um erro estratégico. A consultora defende que a sociedade precisa se comprometer com a valorização do educador, garantindo que ele tenha suporte para mediar a relação entre os alunos e as novas ferramentas digitais, assegurando o desenvolvimento integral dos estudantes.





