O governo brasileiro rejeitou incluir, na negociação do tarifaço com os Estados Unidos, uma exigência apresentada pela gestão de Donald Trump sobre a participação de “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada por outros veículos.
A demanda constava de um documento com 21 pedidos, encaminhado pelos americanos aos negociadores brasileiros em 16 de outubro de 2025, durante missão liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a Washington — primeira proposta de acordo entre os dois países após a tarifa de 50% imposta pelos EUA a produtos brasileiros, em julho de 2025.
O que dizia a exigência
Segundo o documento, os Estados Unidos pediam que o Brasil se comprometesse a realizar eleições presidenciais “livres e justas” em 2026 e não detivesse, prendesse ou limitasse “arbitrariamente” a participação de pessoas classificadas como “dissidentes políticos” no processo eleitoral.
Integrantes do governo brasileiro ouvidos pela reportagem interpretaram a exigência como referência à situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, embora o nome dele não apareça no documento. À época da proposta, Bolsonaro já havia sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo relativo à tentativa de golpe e estava inelegível por decisão da Justiça Eleitoral.
Itamaraty rejeitou os termos
Segundo fontes do Itamaraty, a exigência não avançou porque o governo brasileiro contestou a existência de “dissidentes políticos” no país e considerou os termos da proposta inaceitáveis. A demanda, segundo as mesmas fontes, teria sido apresentada por um diplomata de origem venezuelana radicado nos Estados Unidos, mas não chegou a ser incorporada oficialmente à negociação.
Não houve, portanto, compromisso formal do Brasil em relação à participação de indivíduos específicos no pleito de 2026.
Documento também tratava de liberdade de expressão e outros temas
Além do ponto eleitoral, o documento americano incluía outra condição para impedir que autoridades brasileiras aplicassem, contra cidadãos, residentes ou empresas dos Estados Unidos, punições por manifestações que, na avaliação americana, estariam protegidas pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA. A proposta também previa garantias específicas para empresas americanas de serviços digitais, com aviso prévio e possibilidade de contestação diante de decisões e multas relacionadas a publicações em redes sociais.
O documento ainda abordava temas como minerais críticos, aviação, medicamentos, trabalho forçado, pesca ilegal, desmatamento e comércio de soja e aço. Em 9 de janeiro de 2026, os Estados Unidos enviaram uma nova versão da proposta, mais curta, com sete setores e 14 tópicos — sem, segundo as reportagens consultadas, repetir a exigência sobre “dissidentes políticos”.
Contexto de tensão bilateral
O episódio ocorre em meio a uma série de atritos entre Brasil e Estados Unidos envolvendo o processo eleitoral brasileiro. Em julho de 2026, o Itamaraty havia negado vistos a funcionários do governo americano que pretendiam viajar ao país para discutir questões relacionadas ao sistema eleitoral e à liberdade de expressão.
O governo Lula já havia acusado a gestão Trump de tentar interferir em assuntos internos do Brasil, sempre em resposta a ações concretas dos EUA — como o próprio tarifaço, a designação de facções brasileiras como organizações terroristas, sanções a autoridades e a cassação de vistos diplomáticos. Até a revelação desta demanda específica, o teor da exigência sobre “dissidentes políticos” era mantido em sigilo pelos dois lados.





